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terça-feira, agosto 18

Memorias do Cão


Eu Cão


Sou um cão, branco, algumas pintas pretas, porte médio, destes bem vira-latas, moro num bairro novíssimo de classe alta, em uma bela casa, tenho meu próprio quarto e gosto de ser bem servido.
Passo o dia inteiro deitado na calçada, olhando o movimento. Odeio o sol e a lua, a vida de cão não é nada agradável, nada para se fazer, não poder falar, não escrever, nem as cores eu vejo, boa só a comida que me servem.


A Rua.


Minha rua tem três casas, a primeira em que moro, Cíntia é a dona, seu marido foi embora no dia em que cheguei. A casa, um sobrado, toda pintada de verde, a porta da frente é toda trabalhada com figuras de anjos, na parte de baixo várias salas e uma cozinha gigantesca, em cima os quartos, quatro, e um só para mim. A única dificuldade é subir e descer aquela escada em caracol todos os dias.
A segunda casa é suspensa sob colunas de concreto, suas fachadas são todas de vidro fumê, ninguém mora nela, de vez em quando um profissional vai fazer alguns acabamentos.
A terceira está em construção, todo domingo à tarde as duas belas aparecem para ver o andamento da obra.


Cíntia


Uma bela mulher, cabelos negros e compridos, olhos verdes, lábios grossos, uma mulher encantada e ótima cozinheira.
Como eu já disse no capítulo anterior seu marido foi embora e nunca mais voltou, mas para minha sorte ele deposita em sua conta “alguns” valores.
Ela passa o dia todo arrumando a casa, sai apenas para fazer compras, e nas noites que a lua não aparece, ela se torna mais bela, se perfuma, passa seus cremes e me aguarda.


O Carro


Naquele sábado, foi atípico, o principal motivo dessas memórias estava prestes a chegar. O carro negro, a estrela de três pontas brilhava perante o sol, para diante a casa de vidro, um homem de meia idade desce do carro, trajava tênis preto, meias brancas, bermuda jeans e uma camisa pólo branca, óculos escuros e cabelos grisalhos, vai até a outra porta do carro e quando abre, ela aparece.
Carla! Não era bela, era feia. Loira, pele clara, nos seus olhos uma venda negra, o homem a conduz para a casa e aqui da minha calçada escutei o grito de surpresa dela.
Meu interesse nela naquele momento era nenhum!



Titica.


Se alguém manda nessa rua este alguém sou eu, então tenho direito de fazer minhas titicas aonde bem entender, e fiz bem à frente da casa de vidro, enorme e mal cheirosa.
Senti vontade de rir, quando o homem saiu de sua casa pronto para a uma caminhada e escorregou nela, caiu de bunda, sujou sua meia e perna e voltou xingando para a casa.
Passou alguns momentos e os dois voltam e para azar deles ela apontou em minha direção.



A Carrocinha.



Estava na hora do almoço, sentia os aromas da cozinha, bife parmegiana, um dos meus preferidos, naquele dia não tive o privilégio de saboreá-lo, parou em frente da casa de vidro, um caminhão estava escrito “Prefeitura Municipal”, só entendi o que estava acontecendo quando os dois homens com seus laços vieram em minha direção, tentei fugir, mas era gordo e lento.
Não estava muito preocupado, pois esta noite a lua não ia aparecer.


Depósito de cães.



O depósito de cães era um prédio térreo, sujo e fedorento, os cães presos em celas. Para cada cão uma cela.
Os funcionários públicos prenderam-me e um deles disse:
- Espero que seja apenas este.
O outro respondeu:
- Até as oito da noite ainda tem tempo.
Fiquei animado com aqueles comentários, não precisarei ir muito longe para encontrar os dois.






Há verdade.


Leitor! È o momento de tirar suas dúvidas, meus colegas cães estão todos mortos, o sol já se foi e não estou mais preso à forma de cão, posso me transformar em espírito ou qualquer forma vivente, fui pai de vários nefelins, estive perto do criador e fui expulso por Miguel, durante cinco mil anos percorri a Terra atrás dos prazeres terrestres, já me chamaram de Apolo e Dionísio, seduzi rainhas, princesas e rameiras.
Na forma de espírito foi muito fácil sair da cela e do canil.
Tomei a forma de Apolo com trajes atuais. Dei uma última olhada para o depósito de cães, fechei os olhos e quando abri, estava em chamas, senti o cheiro de pele queimada e esta não era apenas só de cães.

Outras verdades


Amael é o meu nome, vivi na cidade pagã do rei Guedes, “Reino da Taxia”, submisso a minha vontade, o harém real era meu, isso no ano cem depois de cristo e minha felicidade não durou muito tempo. Apareceu por lá um cristão judeu de nome Ananias, conheceu o próprio cristo quando criança.
Quando ele invadiu o castelo, meus irmãos pairavam pelos ares, centenas deles, com suas asas alvas e olhos azuis, E o judeu cristão disse:
- Enquanto houver sol ou lua no céu, serás cão.
Dito e feito! Tentaram me matar com flechas e espadas, mas como cão era imortal, me prenderam no porão do castelo.
Para minha sorte há noites que Selene não aparece.



A piscada.


Como espírito, atravessei a cidade em segundos, vejo meu bairro, as três casas, e Carla fazendo sua caminhada, me materializo bem atrás dela, dei um latido. O susto foi enorme, ela deu dois passos para trás e com simplicidade pisquei para ela, assustada colocou as duas mãos na face e correu em direção da casa de vidro.



O marido.


Ele saiu, me procurou na rua e nada viu. Tomei minha forma de Apolo, a alguns passos atrás dele, ele se virou e me viu, sua pele se tornou branca, olhei em seus olhos e falei:
- Vá!
Ele entrou na casa, alguns momentos depois saiu com seu carro pela garagem e sumiu pelas ruas.
Que ele vá com a boa morte!


Carla


Agora falta ela, entro pela porta, não vou dar detalhes, não escrevo pornografias.
Não se preocupe, com os próximos capítulos você vai poder imaginar o que aconteceu.





Outro dia



Estou em minha calçada, o sol já nasceu há algumas horas, senti o olhar dela através do vidro fumê, pois ontem usei a forma que mais odeio!
As horas passam, um carro negro e vermelho aparece no final da rua, em suas portas estava escrito “Polícia Militar”. Os policiais descem do carro, apertam a campainha, ela aparece com um roupão negro.
Não preciso usar minha audição canina para saber que vieram trazer notícias do marido morto.


Três balas


Dava para ver o carro da polícia virando a esquina quando ela saiu, só de camisola, em sua mão uma arma, caminhou em minha direção, seus ombros estão arranhados, suas costas também, fiz questão de deixar minhas unhas no maior comprimento possível.
Ela mirou em minha direção, atirou, acertou minha cabeça, caí. Ela deu dois tiros a queima roupa.
Uma das coisas que aprendi a fazer como cão é fingir de morto. Permaneço neste estado durante alguns segundos, quando pressenti um sorriso de satisfação em seu rosto, me levantei, olhei em seus olhos. Ela tomou a iniciativa, com as duas mãos posicionou a arma bem abaixo do queixo, puxou o gatilho. A arma só tinha três balas, tentou novamente e novamente.
Pobre mulher, caiu de joelhos no asfalto, o carro da polícia retornou guiado pelo estrondo dos tiros. A levaram. Nos seus olhos vi lágrimas.



Marcas


A casa de vidro ficou vazia por vários meses, a venderam para um casal de idosos. Carla nunca foi mais vista pela vizinhança, as marcas deixadas nos ombros e costas podem desaparecer, mas as deixadas na alma e memória ficam para sempre.


As duas belas

Leitor! Você se lembra das duas belas do capítulo II, então a casa delas está pronta, toda lilás, com as janelas e portas brancas. Elas caminham de mãos dadas, tenho certeza que não são irmãs, mas não tenho preconceito! Pena que a próxima noite sem lua é para semana que vem.



Digitação


Não sei mexer com teclado, mouse e computador, estas memórias foram digitadas por Cíntia, talvez conte outras.


Frases


Se você não tem um código de ética ou não é submisso às leis, tudo é permitido! Deus é claro que existe!

Entre servir no céu, ou servir no inferno, prefiro o paraíso das mulheres!

Como sempre preciso frase de efeitos, deixo estas duas.

MENINAS

Meninas novas!
Meninas velhas!
Algumas belas!

Nas praças,
nas ruas,
nas aguarelas.

Como pombas
atrás de migalhas,
vendem seus corpos
por nada.