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domingo, dezembro 18

Compadre Luiz e o Lobisomem.

 Era uma noite de céu enluarado. Na  varanda da casa de compadre Luiz estavam sentados Compadre Tônico, sua esposa Janeeda, o dono da casa e sua mulher Tatiana. Compadre Tônico  estava terminando de contar seu causo sobre a mula sem cabeça.
          - Então! Mim estava sentado na bicha sem cabeça desde lá o bairro do São João e ai ela começou em um galope fumegante, dos casco saia fogo e faíscas e isso lá pelas três horas da madrugada, só sei que passemus por este nosso bairro atravessemus Guararema e fomus para em Mogi e só paremus lá porque o sol nasceu e a mula, a bicha sem cabeça sumiu.

          - Como o Compadi fez para vim pra cá di novo? Perguntou Comadre Tatiana.
          - Emprestei um dinheiro dum Japonês e vim di ônibus!
          - É, ...faz sentido galopar na bicha sem cabeça!Mais emprestar dinheiro di japonês qui ocê não conhece isso parece estoria! Disse Compadre Luiz.
          - Ocê acha que não existi japonês bom! Retrucou Compadre Tônico.
          - Japonês bom existi o que não existi é japonês bobo, se ele imprestou dinheiro cum certeza ocê não voltou para paga! 
          - Éééé,  o Ocê si acha esperto, mais ainda não contou seu causo!
          Compadre Luiz pegou seu chapéu e colocou na cabeça, olhou para a lua e começou sua historia.
          - Faz tempo qui aconteceu! Tavam construindo a fabrica Papel Simão, casa tinha pouca, mas todo sábado tinha arrasta pé lá na casa do Véio falecido Camargo. E foi neste arrasta pé qui tudo começou. Já tinha tomado uns par de pinga quandu aparece uma polaca do cabelu vermeio, dancemos quase a noite toda, a polaca não era de Jacareí, era de São Jose dus campus. Dancemus tanto que perdi a carona di caroça  qui o Janinho ia mi dar.

          - Não tem assombração neste causo! Resmungou Compadre Tônico.
          - Tá chegandu! Então tinha um primu da polaca qui tinha um ciumi danado dela. Ele veio di facão na mão.
          - O Compadi não ficou com medo?Disse Comadre Janeeda.
          - Os ceis sabem qui fui capoeirista desde moleque, e dei o qui o pessoar chama di voadora e o sujeitu foi parar no chão.
          - E o qui aconteceu dipois. Perguntou Comadre Janeeda.
          - O Comadi! Mi colocaram para fora do arrasta pé e tive qui volta a pé para a casa.
          - O Véio Camargo morava a uns dez quilômetros da casa di seu pai! Disse O compadre Tônico.
          - É! E o caminho era aquele de boi, eucalipto não existia era só pasto, a lua era iguar a essa, parecia um queijo, caminhei uns três quilómetro e percebi que tava sendo seguido, olhei para traz e vi o bicho, seus zóios eram vermeios, tinha uns dois metrus. Deu um latidu destes assim AAAAUUUUUUUUU o latidu parecia qui não acabava AAAAUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUU..................

          - Ai! Qui o cê  fez Compadi? Perguntou a Comadre Janeeda.
          - Ai! Eu corri, e o bicho tava atrás!
          - Correu pra ondi? Perguntou Compadre Tônico.
          - Corri na direção do pomar do Nelsinho do Bar, subi em uma mangueira, mas u bicho deu um pulo que quasi me pegou, eu não sabia qui lobisomem subia em arvore, dei um pulo da arvore para aquele laguinho, Nadei até a outra margi e o bichão tava contornadu o laguinho, ai mim viu a bananeira.

           - Bananeira! O qui bananeira tem have com lobisomem. Retrucou Compadre Tônico.
           - Calma compadi! Continuandu o lobisomem tava quasi pertu e mim tirou o pregu do borso e enfiou na bananeira e o bichão começou a vira de um ladu para outru e...
           - Pregu na bananeira mata lobisomem? Gritou Compadre Tônico.
           - Compadi! Era um pregu de prata!
           - Si fô de prata ai podi!
           - Então! Ele começou a vira de um ladu para outru e um tipu de fumaça saiu dele e foi entrandu na bananeira. Não é qui a bananeira fico murcha e o bicho virou gente.
           - I quem era o bicho? Perguntou Janeeda.
           - Adivinha comadi!
           - O primu ciumentu! Disse ela.
           - Claru qui não! Disse sorrindo o compadre Luiz
           - A polacona! Gritou compadre Tônico.
           - Ondi já viu mulhe lobisomem compadi. Vou dize! Era o falecidu Camargo!
           - Por qui Ocê nunca disse que ele era! disse exaltado compadi Tônico.
           - Si acha qui sô dedu duro, agora possu fala,  o falecidu ta mortu!
           - E o pregu de prata? Insistiu o compadre Tônico.
           - Mostra pra ele amor. 
           E a comadre Tatiana colocou a mão no bolso e tirou um enorme prego de prata e o segurou nas pontas dos dedos.

           - É chega di causo! Ocê não disse qui tinha uma cachaça boa ai! Agora vamus bebe. Disse o compadre Tônico.
           E os dois casais continuaram a conversa saboreando uma boa pinga de alambique e varias vezes o Compadre Tônico comentou que o causo dele era verdadeiro.

  Fim  

quarta-feira, dezembro 7

Maria Negrinha "A lenda da cobra grande de Jacareí"

Diziam os velhos:
“Ela come boi!”
“Ela come 
bezerro!”
“Até homem já 
comeu!”.



Passeava pelo
nosso rio Paraíba.
Uns diziam:
“Tinha oito metros”.
Outros:
“Mais de mil”.

Alguns católicos
exclamavam:
“O dragão bíblico!”.
Indígenas:
“Um ser encantado!”.

E o padre gritou:
“Só Maria
para vencer
o dragão!”.



E a imagem branca
se fez 
pelas boas mãos 
do artesão.

O povo, da vila
de Nossa Senhora
da Conceição,
deram-lhe um manto,
da mesma cor
do manto
de Vosso Senhor



E o Padre gritou:
“Três dias 
De reza 
para Maria!”.

E o povo se juntou
no meio da vila
de Nossa Senhora
da Conceição.
Iniciou-se a rezação

O mau Capitão
viu negras e 
negrinhos
no meio da 
multidão.
Disse a eles:
“Maria não
quer sua 
reza não!”.



Negras e 
negrinhos
foram expulsos
pelo chicote e o
varão.

Com indignação,
o negro velho,
com suas mãos sofridas,
fez da cor de
negro e negrinhas
 outra Maria.



Faziam um 
Pai Nosso
e depois uma 
Ave Maria

Não Tinham 
terços,
nem crucifixo.
Apenas as mãos
juntas e lágrimas,
que escorriam
pelo rosto
até o coração.

Passaram-se
três dias 
de rezação.



Para a imagem
da vila
fizeram um barco
com flores e outras
decorações.

Para a imagem 
dos negros e 
negrinhos,
um cesto de bambu
e duas orações.



E o povo da vila
riu
da negrinha
Maria.

Neste momento,
talvez
por previdência
divina,
o barco decorado
afundou em
nosso Rio Paraíba.



O mau capitão
jogou pau,
seus jagunços
pedras.

Negrinha Maria
parecia estar
protegida e
continuou sua 
peregrinação
ao encontro 
do dragão



Passaram-se
sete dias.
Um pescador
encontrou
morta a cabeça
pequena, parte
da cobra grande,
ao lado do cesto
de Maria

A negrinha Maria 
por ali
nunca mais 
foi achada,
afundou no rio
ou aos céus
Elevada.



Uma imagem 
foi achada,
alguns disseram:
“parece a
negrinha Maria”
conhecida hoje
como
Nossa Senhora
Aparecida.