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domingo, março 17

As três perguntas de Adolf.


As três perguntas de Adolf.

A professora Elaine entrou em seu apartamento, chateada com o diretor que lhe chamou a atenção, por falar sobre a política atual a seus alunos. Jogou a pasta com as redações de seus estudantes no sofá, foi até a cozinha e voltou com um copo de água, precisava corrigi-las; escolher uma para enviar a secretaria de educação, era um concurso e o tema “um Herói”, sentou, abriu a pasta e retirou um aleatoriamente.

                                                      30 de junho de 1978
Nome: Klaus Müller
Trabalho de historia
Um Herói

O ano era 1945, meu pai tinha minha idade, loiro de olhos azuis, foi criado pelo avô materno, mas com a morte do mesmo foi abrigado a morar com o pai, mudou se para uma cidade próxima de Berlim do lado oriental.
Meu avô era tradutor, falava vários idiomas, mas não trabalhava para o governo, sua casa era toda feita de madeira, um sobrado com Sótão, morava em uma estradinha e a casa mais próxima era a cem metros de distância.
Na primeira noite meu avô foi até o quarto dele disse.
- Adolf! Se você ouvir qualquer tipo de barulho não se preocupe, tem uma família morando em nosso sótão.
- Uma família? Perguntou meu pai.
- Sim! Uma família! Uma família judia!
- Mas se eles descobrirem?
- Eu e você somos presos e eles morrem!
- Mas pai?
Meu avô explicou, mas Adolf não concordava, então apareceu à grande idéia!
- Filho! Você gosta de mitologia?
- Sim!
E fez um sinal com a mão pedindo que esperasse alguns momentos e saiu do quarto, não demorou muito, em sua mão uma folha de papel.
- Foi escrito por um brasileiro, um mestiço, eu mesmo o traduzi, é a primeira de três partes. Para cada parte você terá que fazer uma pergunta.
Meu pai pegou a papel e começou a ler



Liberdade.

Prometeus foi aquele que roubou o fogo dos céus e entregou a humanidade, com este fogo os humanos cozinharam os alimentos, criaram ferramentas e armas, construíram e destruíram civilizações.
Pelo seu crime foi acorrentado na mais alta montanha e seu fígado comido por uma águia todos os dias. Prometeus era um deus que podia prever o futuro!

30.000 anos atrás.

Prometeus estava no alto da montanha, a águia já fez a sua refeição, uma nuvem se aproximou e sobre ela Zeus.
– Prometeus – Cansou de mandar seus filhos e lacaios.              
– Zeus – Você sabe o que me traz aqui.                                        
– Prometeus – Filho que ainda não nasceu e que vai tomar seu trono nos céus.
– Zeus – O nome da mãe e serei piedoso.                                                  
– Prometeus – Não quero sua piedade.                                         
– Zeus – Sua liberdade?                                                                  
– Prometeus – Isto é muito pouco.                                                 
– Zeus – Nossos pais e tios não podem ser libertados. *                  
– Prometeus – Isso não foi pedido!                                                 
– Zeus – Então diga o que queres?                                                
– Prometeus – A cada inverno, essa informação se torna mais valiosa, se minha tortura é física a sua será na alma.               
 – Zeus – Você sabe que posso te destruir.                                     
 – Prometeus – O faça e será seu mais estúpido erro.                 
 – Zeus – Que os milênios destruam seu orgulho.                              
 – Prometeus – Não sou eu que tenho pressa.

Zeus se afasta da montanha em sua nuvem.
·         Os titãs deuses que antecedem os olímpicos

Meu pai ficou muito confuso com o texto, parecia uma mini peça de teatro, releu e em seu caderno fez a primeira pergunta.

O que é mais importante que a própria liberdade?

Deitou- se, tentou dormir, mas o barulho que vinha do sótão, não deixou, eram passos, de um lado para o outro, o ranger das tabuas. Fechar os olhos e abri-los novamente pensou e disse varias vezes “Malditos judeus”.
Outro dia quando meu pai acordou, saiu à procura de uma pequena fenda no teto, vasculhou os cômodos, até que a viu, não era grande coisa, o suficiente para matar sua curiosidade, foi até o quarto e voltou com uma cadeira, não foi o suficiente, pegou outra e as empilhou, subiu nelas e aproximou seu olho direito da fenda, via apenas as luzes das lamparinas, tentou olhar dos lados, e nada via, tentou com o olho esquerdo, neste momento um pé judeu passou por cima da fenda jogando poeira em seu olho, se desequilibrou e caiu, no sótão ouviram gritos, meu avô apareceu.
- Por deus! Adolf! O que você fez! E depois disse algumas palavras em uma língua que meu pai desconhecia e subiu para o sótão.
Meu pai ficou caído no chão, seu corpo doía, teve algumas lesões leves, e raiva, por meu avô ter amparado primeiro os judeus.
Alguns momentos depois meu avo voltou, com a cara baixa.
- Eu poderia ter quebrado a perna e você os escolheu!
- Filho se eles fizerem alguma besteira nos todos estamos perdidos.
- Mas pai eles são judeus, vieram para nossa terra e enriqueceram.
- Por isso devemos tirar suas vidas? Filho! Sabe o porquê de seu nome “Adolf”. Foi uma homenagem ao nosso líder. Fui influenciado. Era membro do partido, o nazi. Depois de uma reunião, acompanhei um grupo de colegas, andamos pelas ruas escuras, éramos caçadores, movidos pela violência e preconceito, espancamos uma polaca apenas pelo prazer, eu me senti onipotente. Ai! Veio o dia seguinte, você no colo de sua mãe e a imagem da polaca sangrando, isto me atormentou, deixei o partido, me entreguei a nossa família, com a morte de sua mãe, e seu avô te querendo e tendo condições, não tive outra opção, o entreguei e decidi fazer algo, e se algo é ajudar essas pessoas que estão ai em cima.
Meu avô colocou a mão no bolso e tirou outra folha.
- Adolf! É a segunda parte!

Meu pai pegou a folha e iniciou a leitura


10.000 anos atrás

Zeus se aproximou da montanha em um cavalo alado e negro. A águia ainda estava fazendo sua refeição.
- Zeus – O grande titã já se acostumou com a dor.
- Prometeus – Aqueles que se acostumam são os mesmos que se entregam!
- Zeus – Já sabe sobre a Atlântida?
- Prometeus – Sim! Deus genocida!
- Zeus – Mais de trezentas mil pessoas.
- Prometeus – Só porque construíram um templo para me homenagear.
- Zeus – Do mesmo tamanho do meu.
- Prometeus – Por que não descarrega sua ira neste titã, lance seus raios, me faça em cinzas.
- Zeus – Você sabe que não posso.
- Prometeus – Pobre deus onipotente, não será hoje que você terá sua informação.
- Zeus – Fique em seu suplicio maldito titã.
- Prometeus – Antes de ir, diga o motivo de sua ira.
- Zeus – você preferiu amar a eles.
Zeus se afasta em seu cavalo negro.


Adolf foi ao quarto e pegou seu caderno onde estava a primeira pergunta e escreveu a segunda.

“Entre humanos e deuses! Porque escolher os humanos?”


Meu pai ficou ainda mais confuso, ele desceu e comeu um pedaço de pão e pela janela viu uma árvore repleta de frutos foi até seu quarto e pegou seu estilingue, desceu para o quintal, juntou algumas pedras, mirrou e soltou à primeira, a fruta se espatifou em milhares de pedaços e tornou a repetir e repetir, até se entediar, sentou-se abaixo de uma janela, continuava confuso, até que apareceu uma dezena de passarinhos, meu pai pegou uma pedra, mirou e não conseguiu soltar, tentou varias vezes. Por quê? O que era tão fácil se tornou tão difícil. Voltou para casa e na sala viu biblioteca eram centenas de livros organizados por titulo, foi direto nos que iniciava com “P” até encontrar “Prometeu Acorrentado – Ésquilo” e a tarde, leu e releu a peça. Os ruídos do sótão não o perturbavam mais, a noite caia. Jantou com o pai, ajudou a montar os pratos para os judeus, o acompanhou até a entrada do sótão, voltou para seu quarto. Tudo era novo e estranho.

Adolf acorda! É outro dia. Coloca os sapatos e desce para a sala, gritou seu pai da cozinha.
Ele acordou e se levantou, colocou os sapatos e roupas, e começou a descer as escadas.
- Em cima da mesa! Gritou seu pai.
E Adolf viu a folha, pegou e começou ler.

5.000 anos atrás

Zeus se aproxima andando
- Zeus – O que queres titã.
Prometeus – A humanidade livre dos deuses olímpicos e minha liberdade.
- Zeus – se explique.
- Prometeus – Cortar todo contato, eles decidiram o futuro de sua raça, as belas humanas não devem ser mais cobiçadas, suas guerras devem ser decididas por eles, entre outras coisas.
- Zeus – Eu aceito! Diga quem será ela.
- Prometeus – A filha do deus Nereu de nome Tetis!
- Zeus – O que devo fazer?
- Prometeus – Case a com o rei Peleu, mantenha a longe e sempre a sua vista.
- Zeus – Será feito! Mas...! Sua liberdade e a dos humanos só após estas coisas acontecerem.
- Prometeus – Concordo! Que as correntes e esta águia me acompanhe por mais algumas décadas, que são décadas perto de milênios.
- Zeus – Me responda meu primo, morreria por eles?
- Prometeus – Até mesmo para nós, morrer é apenas um detalhe, quando se vive por algo! Alguns seguiram meu exemplo, viveram e morreram por menos        
- Zeus – Como você! Serão tolos!
Zeus caminhou e desapareceu.
Trinta anos depois Hércules liberta Prometeus.



Adolf pega seu caderno e faz a terceira pergunta.

Devemos viver por algo?




Caminhou até a cozinha, e disse.
- Pronto aqui estão às três perguntas.
Meu avô pegou o caderno e leu, sentou-se numa cadeira.
- Filho! A história de Prometeus é uma grande metáfora sobre a vida, fala em que a gente se prende, veja essa casa, é o penhasco, o rochedo, a montanha, os judeus e você são minhas correntes, eu mesmo as coloquei e tenho orgulho disso, e a águia, a maldita águia é o medo de ser descoberto.
- E essas perguntas?
- Suas perguntas! Suas respostas!
Eles tomaram café juntos e falaram muito, sobre a vida, política e filosofia.
Alguns dias depois, meu pai e meu avô estavam trabalhando na horta, algo chamou a atenção deles, vinha da estrada, eram tanques soviéticos, foram passando na frente da casa de meu avô, no último um soldado acenou para meu pai.
- Adolf! Perdemos a guerra! Disse meu avô sorrindo.
 Naquela noite meu avô abriu o sótão e dele saiu um velho judeu, barbudo e de olhos negros, depois uma garota, catorze anos, tinha os cabelos escuros, compridos e negros, sua pele era muito branca e seus olhos verdes.
Meu pai entrou no sótão e apenas viu duas camas e uma pilha de livros, quando desceu viu os dois na sala sentados no sofá, meu avô os apresentou.
- Adolf! Este Jacob! Ele não sabe nosso idioma, e, esta sua neta Ester!
Naquela noite jantaram e pouco foi dito, com o passar dos dias meu pai percebeu que Ester gostava das mesmas coisas que meu avô. Os dois viviam falando sobre livros antigos. Em um desses dias Ester falou sobre a necessidade e a ignorância no conto de natal de Charles Dickens, meu pai foi até a biblioteca, pegou e o leu em uma noite, e descobriu porque que as pessoas se tornam em criminosos, em outro dia a discussão foi sobre o retrato de Dorian Gray de Oscar Wilde, Ester dizia que Dorian enxergava sua alma no retrato, meu pai novamente foi à biblioteca, em uma outra noite estavam discutindo sobre o demônio de Ivan , em Os Irmãos Karamazov de Fiodor Dostoievski, quando uma pedra quebrou a janela da sala, eram jovens Alemães, eles gritavam.

- Morte aos Judeus!
- Morte aos amigos dos judeus!
Meu pai viu medo nos olhos de Ester, Meu avô foi até o armário, abriu a gaveta mais alta, pegou um revolver e saiu pela porta dando tiros para o alto, os jovens fugiram e meu avô disse.
- O que fizeram com esses garotos! 

No dia seguinte, Quando meu pai desceu para o café encontrou meu avô enchendo o pneu de uma bicicleta.
- Toma o café! - Disse meu avô - Preciso de sua ajuda!
E com a bicicleta ele foi chamar um amigo de meu avô, Schrader era seu nome, voltamos de automóvel, meu avô estava na varanda quando retornaram, trocou algumas palavras com seu amigo, entrou no automóvel e gritou para meu pai,
- Schrader irá ficar com vocês até eu voltar!
E meu avô partiu em direção de Berlin.
Schrader olhou para meu pai e perguntou.
- Onde está à pequena Ester?
- No escritório de meu pai, deve estar lendo.
E os dois entraram na casa, quando Ester o viu soltou o livro no chão e correu em sua direção, dando um caloroso abraço.
- Ester! Ester! Que saudades! – Disse Schrader.  
- E os outros? Todos estão bem? - Perguntou Ester.
- Alguns escondidos outros conseguimos mandar para bem longe dos nazistas, mas todos estão bem.
- E Daniel?
- O mandamos com toda família para a América, mora em Nova York com os tios.
Schrader deu dois passos para trás e Perguntou.
- O que a menina de olhos verdes estava lendo?
- Estou relendo Dom Quixote, os cento e noventa e três livros que estão na estante já foram lidos, você não tem mais alguns para me emprestar.
- Não preocupemos com isso, vamos resolver o problema, você vai poder ler todos os livros que quiser e vocês nunca mais vão ter que se esconder.
Naquele momento, Adolf percebeu que não era apenas seu pai e Schrader, havia muitas pessoas envolvidas, um grupo, talvez uma sociedade preocupada em salvar vidas, ajudar pessoas diferentes, de outra cultura, de outra raça, ajudar apenas por que era preciso ajudar. O velho Jacob desceu do sótão e quando viu Schrader soltou um sorriso, um sorriso de agradecimento.
Meu avô retornou no final da tarde. Estava agitado e alegre, Schrader, Ester, Jacob e meu pai estavam na sala. E começou a contar as novidades.
- Deu tudo certo! Depois de amanhã iremos partir! Um paraíso tropical! Onde não seremos alemães ou judeus! Seremos apenas estrangeiros! Gringos! Um país latino e americano, um país de mestiços.
- Onde Pai? Perguntou Adolf.
- O Brasil.
Dois dias depois eles estavam partindo, a princípio meu pai ficou revoltado com a viagem e quando chegaram teve uma grande dificuldade com o idioma. Ester em alguns meses dominava a língua portuguesa. Meu avô já tinha traduzido vários livros portugueses e brasileiros. Jacob se manteve ignorando a língua alemã e portuguesa.
    Com o passar dos anos meu pai e Ester se apaixonaram. Jacob era contra ao namoro, devido à religião e sua cultura. Tinha idade avançada e faleceu, alguns anos depois os dois se casaram. Mas continuaram os estudos. Minha mãe Ester formou em Letras ,literatura mundial e brasileira é professora, crítica e tradutora, é apaixonada por Machado de Assis e Clarice Lispector. Meu pai formou se em medicina se tornou obstetra era conhecido como o antártico devido o seu gosto pele cerveja e sua frieza no trabalho, trabalhava em hospitais públicos e católicos atendendo as pessoas mais necessitadas, os poucos dias que ficava em seu consultório, atendia a altas classes sociais. Meu avô como tradutor se tornou amigo de grandes escritores e artistas brasileiros, apaixonou se pela bossa nova, era amigo de Vinicius, Tom, Jorge e Elís, devido a essas amizades foi convidado a sair do Brasil pelo governo militar, Meu pai queria acompanhá-lo, Meu avô disse a ele


- Filho! Aqui você salva vidas. Lá você seria um montador em uma fabrica de automóveis, seus filhos são brasileiros. O que te prende aqui é muito maior. Se vocês me acompanharem, não vou me perdoar.
Há onze anos ele partiu, na Alemanha e Israel foi reconhecido como herói, seu nome foi colocado no “Jardim dos Justos” onde já estavam o nome de Guimarães Rosa e sua esposa. Toda semana ele mandava cartas para toda família, um dia meu pai recebeu um telefonema de Schrader, a triste noticia, meu avô tinha falecido em um acidente automobilístico. Apenas meu pai voltou para a Alemanha para enterrá-lo.
Tenho três irmãos! Todos com nomes de profetas!
Isaias Müller.
Daniel Müller.
Elias Müller.
O meu nome foi uma homenagem a um grande herói!
Klaus Müller!  Meu Avô!
Fim.


A professora Elaine fechou a redação e a colocou em cima do sofá, e começou a refletir. “As maiorias dos outros alunos escreveram sobre Tiradentes ou D. Pedro I, uma ou duas paginas no máximo. Klaus fugiu do lugar comum, mas dificilmente será eleita a melhor redação, o personagem central foi expulso pelo governo, era estrangeiro e amigo de pessoas que são contra esse governo”. Ela se levantou deu dois passos e lembrou-se das três perguntas de Adolf, voltou e pegou a redação e disse para si mesma.
- Se não aparecer outra melhor! Será esta que enviarei!

            Fim.